Ninguém mais tem vela em casa

Se eu te perguntar se você tem alguma vela na sua casa, o que você me responderia? Não dessas cheirosas que você usa para perfumar o ambiente mas uma vela branca, simples mesmo, que você comprou com o intuito de iluminar. Daquelas que vem num pacotinho com várias e que a gente deixa guardado numa das gavetas lá da pia da cozinha esperando o dia que a luz acabar pra acender.

Acho que você vai responder “não” né? Eu não tenho também mas minha mãe sempre tem lá em casa, em Minas Gerais. Minha avó também tinha. E sempre que faltava luz a gente corria pegar umas velas na gaveta e distribuir em alguns cantos específicos da casa: umas duas na cozinha, outra lá no banheiro, talvez alguma na sala, e uma que eu sempre levava para meu quarto e deixava na minha escrivaninha. A luz acabava e não sabíamos bem quanto tempo ia durar então eu ia lá pro meu canto, pegava um livro e ficava sentado lendo, enquanto minha mãe ia fazer a janta. Ou às vezes pegava meu caderno para rascunhar umas ideias novas para um texto que estava escrevendo ou ficava deitado deixando os pensamentos correrem soltos.

via GIPHY

Essa semana caiu uma chuva tão forte aqui no meu bairro que a energia elétrica acabou. E esse evento que costuma durar poucos minutos durou muitas horas. Na verdade só voltou no outro dia no começo da tarde quando eu já estava indo trabalhar. Eu não tinha vela mas, tudo bem, eu tinha o celular e a luz dele se precisasse ir ao banheiro. Eu tinha a internet dele também e poderia ficar ali caçando o que fazer até que a bateria acabasse. E ela ainda ia durar muito porque “ufa!” meu power bank estava carregado.

E foi desesperador! Eu não sabia o que fazer. A ideia de não ter energia elétrica já por algumas horas estava me deixando desnorteado, impaciente.

A verdade é que a gente não sabe mais parar! Não sabemos o que fazer quando não dá pra fazer nada. Não sabemos mais aproveitar a pausa, o silêncio, não sabemos desconectar do mundo lá fora e nos conectar a nosso mundo aqui dentro. Quando a vida vem e nos impõe esse “desligar-se” a gente buga, dá tela azul, a gente fica apertando control+alt+del impacientemente tentando fazer algo funcionar.

imagem do extinto ffffound.

Eu tô lendo um livro do Facundo Guerra (“Empreendedorismo para Subversivos”) e ele faz uma digressão sobre as tomadas serem os “totens da humanidade”, que nossa civilização montada sobre o dinheiro deveria estar sobre a eletricidade.

“O que quero dizer (…) é que colocamos o dinheiro no eixo central de nossa vida, quando deveríamos colocar uma tomada, como manifestação central da existência da eletricidade. (…) se ficarmos três dias sem energia elétrica, provavelmente nos debruçaremos sobre o caos absoluto e o fim do humano tal como o conhecemos hoje.”

E tudo isso porque a gente não desliga mais!

– Tenha tempo para fazer nada. –

Quando eu era mais novo eu passava muito tempo sozinho comigo mesmo, eu saía para caminhadas sem rumo, eu tinha ideias e deixava elas maturando antes de ir conversar com um amigo. E eu precisava fazer esse movimento de “ir” quando eu queria encontrar alguém, bater papo. Hoje não, coloco a mão no bolso e tiro aquela conexão ligada ad aeternum para me conectar aos outros. Não sei mais o que é ficar ESPERANDO um ônibus, ESPERANDO ser atendido no dentista. Agora eu me ligo assim que levanto e me coloco em stand by quando vou dormir.

“Não éramos dependentes do fluxo contínuo de informações e imagens” diz o mesmo livro.

Antes me parece que tínhamos muito mais tempo pra gente mesmo, para olhar pra nossa história e repensar, reconstruir, descobrir o que serve e o que não serve mais, inventar coisas, ser criativo. A criatividade hoje justamente tem voltado com tudo nas pautas porque ela te propõe fazer nada, deixar as coisas acontecerem, fluir como um rio que segue seu fluxo centrado em si mesmo, sem se preocupar com a vida lá fora.

Quando você para seu processo um pouco, o cérebro realiza uma série de conexões e, quando menos você espera, encontra a resposta e a ideia que estava procurando. Vá tomar um banho se você quiser fomentar sua criatividade, dar uma volta sem destino, ir tirar um cochilo. Esses momentos onde deixamos de nos preocupar em estarmos “ligados” e produzindo é quando mais somos criativamente produtivos.

E até quando será que a gente vai conseguir manter essa realidade (virtual?) que criamos funcionando 24 horas?
Até quando vamos viver como nossos celulares que a gente não desliga desde o dia em que tiramos ele da caixa. Aliás, a gente desliga sim, mas quando buga!

Qual foi a última vez que você parou pra você mesmo? Que você de fato se desligou de tudo lá fora e disse “esse momento agora é meu”? E, se você o fez, o que você fez?

Se fez algo, me conta. Se fez nada, que ótimo!

Te convido a fazer nada mais vezes.

*esse texto é uma newsletter para criativos que eu escrevo quinzenalmente e você pode receber também. clique aqui para se inscrever. =)

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Comece a digitar sua pesquisa acima e pressione Enter para pesquisar. Pressione ESC para cancelar.

De volta ao topo